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PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO

A importância do património construído desta região assenta na riqueza da arquitectura popular - caracterizada por uma variedade de linhas espaciais, volumétricas, tipológicas, construtivas, etc., específicas de cada uma das edificações, fruto da função a que se destinam, dos materias que abundam na vizinhança, e, primordialmente, da capacidade de inovação que o mestre-pedreiro, pela sua experiência acumulada, imprime a cada construção - dialogando com outras construções que apresentam uma linguagem arquitectónica de raíz erudita, nomeadamente as igrejas, capelas e casas solarengas.

No território do PNM estão localizados diversos aglomerados rurais edificados com os materiais existentes na região que se organizam espacialmente de forma concentrada, constituindo densos quarteirões de construções.
Na maioria dos aglomerados predominam as construções em xisto, já que o granito apenas aflora pontualmente na serra de Montesinho, na parte setentrional da serra da Corôa e na região dos Pinheiros. Apenas as aldeias de Pinheiro Novo e Pinheiro Velho, Moimenta, Montesinho e Soutelo são edificadas com silhares de granito retirados de uma ou outra pedreira ou talhados a partir de afloramentos que irrompem do solo. Nas restantes aldeias é utilizado o xisto em paredes de paramento duplo, construídas com pedras sobrepostas e argamassas pobres de terra argilosa. Em ambos os casos, empregam-se madeiras autóctones, o carvalho e o castanho, na armação dos telhados, nas estruturas dos pisos e soalhos ou nos vãos de portas e janelas e no seu guarnecimento. Nas coberturas é usual a utilização da lousa, sobretudo a Oriente do rio Tuela e na zona dos Pinheiros, enquanto que na Lomba, nas vertentes meridionais da serra da Corôa e aldeias mais próximas dos aglomerados urbanos de Bragança e Vinhais se utiliza preferencialmente a telha cerâmica. É também frequente a associação de telha cerâmica e de lousa no mesmo telhado.
Em termos volumétricos, as construções existentes adoptam uma forma regular, perfeitamente definida e bastante simples, podendo tornar-se mais complexa em virtude da composição resultante da justaposição dos distintos edifícios ou em consequência da sua complexidade funcional.
O estereótipo da casa tradicional é composto por dois pisos, aproveitando, sempre que possível, a pendente do terreno para permitir um acesso térreo a ambos. O piso inferior destina-se a curral (lojas), celeiro e adega, enquanto que o piso superior é destinado a habitação. A varanda, servida por uma escada de madeira ou pedra paralela ao edifício, é presença constante no alçado principal, como se de mais uma divisão da casa de tratasse. A cobertura do edifício é maioritariamente formalizada a duas águas, de suave pendente, prolongando-se uma delas sobre o espaço de varanda. No entanto, as coberturas podem adoptar formas mais ou menos complexas, o que se prende de forma directa com a estrutura, dimensão e localização do edifício.
De permeio com as habitações ou nos extremos das aldeias surgem edifícios que se distinguem pela sua funcionalidade e pela sua utilização comunitária, nomeadamente a forja, o lagar, o forno de cozer o pão, ou outros, em função das necessidades de cada povoação e do sistema de organização da sua população. Estas estruturas aparecem normalmente instaladas em edifícios rudes, de pequenas dimensões, com cobertura de uma só água, dispondo apenas de uma porta e de um eventual janelo.
Dispersas na paisagem, na envolvente dos aglomerados, aparecem os pombais, construções de pequena dimensão, em forma de ferradura, ou circulares, geralmente caiadas de branco e dispondo de um único vão de acesso.
Uma outra nota de humanização da paisagem é deixada pelos muitos moinhos, privados ou comunitários, que bordejam os cursos de água cujo caudal é suficiente para imprimir movimento às moendas. Tal como a generalidade dos edifícios comunitários, a maioria dos moinhos instalam-se em construções rudes de pequenas dimensões, variando a sua dimensão em função da existência ou inexistência de instalações anexas às do mecanismo de moagem e do número destes mecanismos instalados.
Este património edificado possui maioritariamente características arquitectónicas vernaculares, embora dialogando com outras construções que apresentam uma linguagem arquitectónica de raíz erudita, nomeadamente as igrejas, capelas e casas solarengas.
A alteração de costumes e as sucessivas “campanhas de emigração” que afectaram esta área, bem como o regresso, ainda que temporário, desta população, o aumento do poder económico da generalidade da população e, ainda, o aparecimento no mercado de novos materiais de construção a custos acessíveis, aliados a outros aspectos, como a utilização de modelos arquitectónicos importados com características distintas das locais (nomeadamente no que respeita à implantação dos edifícios, à volumetria utilizada, à tipologia e à decoração), a falta de acompanhamento técnico adequado e a dispensa de apresentação de projectos técnicos junto das autoridades competentes (autarquias) nos processos de licenciamento de obras, assistiu-se ao aparecimento de um crescente número de “novos estilos” localizados, maioritariamente, no perímetro dos aglomerados rurais.
Estas circunstâncias originaram no conjunto edificado do PNM um estado considerado actualmente como passageiro que pode caracterizar-se pela degradação e abandono de muitos dos edifícios existentes (comunitários ou não) e pelo aparecimento de diversos outros, que pelas suas características, assumem um papel dissonante no seio dos aglomerados.
Actualmente, na sequência de uma maior sensibilização da população para os seus valores culturais, assiste-se ao aparecimento de um crescente número de iniciativas de preservação e valorização dos valores da arquitectura popular levadas a cabo pelas entidades institucionais, bem como pela população enquanto entidade privada.


Fonte:
Cruz, C. (1998). Arquitectura popular. Parque Natural de Montesinho - Um guia para o visitante. João Azevedo Editor. Mirandela.