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Perguntas Frequentes sobre a Gripe das Aves (FAQ)

20.02.2006

1. O que é a gripe aviaria de elevada patogenicidade H5N1?

Existem várias estirpes diferentes de Gripe das Aves, embora apenas algumas constituam um problema de saúde para animais ou pessoas. A maioria das estirpes está presente em baixos níveis em aves selvagens, especialmente aves aquáticas, e no pior dos cenários causa apenas uma doença pouco grave. Estas estirpes LPAI (Low Pathogenicity Avian Influenza) também causam apenas efeitos muito suaves em aves de capoeira.
Por contraste, algumas variantes dos Subtipos H5 e H7 podem causar mortalidades massivas em aves de criação. Estas são designadas HPAI (High Pathogenicity Avian Influenza). Os vírus de estirpes HPAI não ocorrem normalmente em aves selvagens.
Estes surgem em aves de aviário, em que a criação intensiva e condições de sobrepopulação permitem que o vírus evolua para formas altamente patogénicas. Daí ser também conhecida por “Gripe aviaria”
As aves selvagens podem também ser infectadas e mortas por vírus HPAI. Aparentemente contraem o vírus por contacto com aves de criação infectadas ou por instalações usadas por estas últimas.
A estirpe H5N1 que actualmente se encontra em circulação é uma estirpe de alta patogenicidade (HPAI). Esta estirpe surgiu pela primeira vez em Hong Kong em 1997.
Evoluiu em aves de criação, de formas de baixa patogenicidade (LPAI) provavelmente adquiridas por contacto com aves selvagens, para uma de alta patogenicidade.
As condições em bandos de aviários (como as altas densidades, especialmente em grupos mistos de diferentes espécies, e contactos prolongados com fezes saliva e outras secreções corporais) mantêm os vírus em circulação enquanto estes evoluem. Os surtos actuais começaram no Sudeste Asiático em 2003, em que se registou um aumento dramático de criação intensiva de aves, muitas vezes combinado com muito baixas condições de higiene e bio-segurança, em pequenas empresas familiares “de quintal”.

2. Porque existe tanta preocupação com este vírus?

Não há precedentes para a escala deste surto de vírus de alta patogenicidade de gripe das aves. O H5N1 é responsável por enormes prejuízos económicos. O Vírus espalha-se muito rapidamente em aves domésticas de criação, tais como galinhas, patos e perus e causa a morte de quase todas as aves infectadas. Inúmeras aves têm de ser abatidas para tentar deter o surto infeccioso. Este facto, conjuntamente com as necessárias restrições ao comércio e deslocação de aves, é causador de sérios prejuízos para criadores, empresas e economias nacionais.
Actualmente, a estirpe H5N1 não é facilmente transmissível a seres humanos. Muitas pessoas estiveram expostas a aves infectadas durante este surto, mas apenas 147 (até 10 de Janeiro) contraíram a doença. No entanto, ressalve-se que mais de metade delas (78) acabaram por morrer, o que implica que, quando contraído, é uma doença de elevada gravidade.
O H5N1 não é também facilmente transmitido de humano para humano. Este factor pode vir a mudar, uma vez que o vírus se encontra em constante evolução. Uma forma do H5N1, que se torne facilmente transmissível entre pessoas, seria causadora de uma pandemia global de gripe em que milhões de pessoas poderiam morrer. Esta forma de vírus pode surgir por “re-emparelhamento” (ocorre quando vírus de gripe humanos e vírus de gripe das aves trocam material genético, durante uma infecção simultânea de um ser humano ou de um suíno), ou por um processo mais gradual de mutação adaptativa. Surtos frequentes de H5N1 aumentam a probabilidade de ocorrência destas evoluções.

3. Qual a ligação das aves selvagens à gripe das aves?

3.1. As aves selvagens podem contrair o H5N1?

Sim. A actual estirpe causou a morte de aves de variadas espécies, especialmente aves aquáticas. A maioria destas forma bandos ou nidifica em zonas húmidas ou em terrenos agrícolas nas proximidades, enquanto outras são aves que frequentemente se alimentam em águas poluídas oriundas de cidades e quintas. Existem ainda espécies como os Corvos, Gralhas ou Pegas que podem procurar alimento perto de aviários de criação.

3.2. Estão as aves selvagens migradoras a espalhar a estirpe altamente patogénica de Gripe das Aves H5N1?

Provavelmente – embora não esteja provado que este seja uns dos principais vectores de transmissão e que todas as evidências sugiram o contrário. Caso este fosse um dos principais mecanismos de propagação do vírus, existiriam certamente milhares de aves selvagens mortas ao longo das principais rotas de migração, criando um rasto facilmente identificável. Assim se as aves selvagens tiverem algum papel na disseminação deste vírus, tudo indica que será diminuto comparado com outros mecanismos de propagação.
Embora alguns surtos sejam consistentes com a direcção e época da migração de aves selvagens, a grande maioria não o é. A migração outonal de 2005 decorreu sem que houvesse registos de aves aquáticas migradoras a propagar o H5N1. Com excepção do caso da Nigéria não há registos do vírus nas áreas de invernada na Índia, Filipinas, Pacífico e em África. Tudo indica que a presença do vírus na Nigéria se deva a deficientes medidas de segurança e falta de controlo de aves domésticas importadas.
O padrão detalhado de surtos é também inconsistente com o que se poderia esperar das movimentações das aves selvagens. Todas as evidências sugerem que o H5N1 é altamente letal para as espécies migradoras selvagens, causando a morte muito rapidamente; aves migradoras infectadas são incapazes de percorrer longas distâncias; o vírus nas aves selvagens é quase sempre contraído localmente, nas imediações do local onde ocorre a morte das mesmas.
Resumidamente, aves selvagens podem ter estado envolvidas em alguns surtos do H5N1 (mais provavelmente em nenhum), mas outros factores aparentam ser muito mais significativos para a propagação do vírus e devem ser o alvo dos principais esforços de controlo.

3.3. Podem aves selvagens “saudáveis” ser portadoras da estirpe (HPAI) H5N1 deste vírus?

Mais de 100 000 aves selvagens saudáveis foram testadas no Sudeste Asiático nos últimos dois anos. Na Reserva Mai Po em Hong Kong foram testadas 16 000 aves selvagens vivas (principalmente de espécies migradoras) entre 1997 e 2004, e destas nenhuma deu resultado positivo para o H5N1. De 850 amostras (sobretudo amostras fecais) de aves selvagens vivas testadas no Lago Erhel, na Mongólia, (no seguimento de um surto do H5N1), também nenhuma foi positiva. Na Eurásia, apenas 9, aparentemente saudáveis, aves selvagens migradoras, “testaram positivo“ para a estirpe H5N1 – embora existam dúvidas sobre a saúde destas aves ou o facto de actuarem como portadores do H5N1. Os recentes casos (até 15 de Fevereiro) de aves selvagens detectadas com o vírus em países Europeus refere-se a aves mortas devido ao mesmo, e embora não se exclua a presença do vírus em aves selvagens saudáveis, esta não está ainda devidamente fundamentada.
Em áreas sem este surto infeccioso como a Coreia, Nova Zelândia, Austrália, Alasca e Europa, muitos milhares de aves aquáticas migradoras foram testadas e todas acusaram negativo para a presença do H5N1.
Por outro lado, Patos-reais inoculados em Laboratório com variantes altamente patogénicas do H5N1 mostraram poucos sintomas de infecção. Em Pardais-monteses provenientes de Henan, na China, foi detectada uma nova variante do H5N1 que não parece causar-lhes a doença (mas que provou ser letal para galinhas). Assim, embora actualmente as aves selvagens não aparentem poder ser portadoras e propagar a estirpe viral HPAI H5N1, é possível que o possam vir a fazer no futuro.

3.4. O H5N1 é uma ameaça para a conservação?

Mais de 10% da população mundial de Gansos-de-cabeça-listada morreram no Lago Qinghai na China. Aves com estatuto de “Globalmente Ameaçadas” podem estar em risco quando possuem populações reduzidas, concentradas em áreas em que o vírus se encontra estabelecido, especialmente quando aves de aviário usem as mesmas fontes de água ou alimento. No Sudeste Asiático e Sudeste Europeu existem várias espécies de aves aquáticas Globalmente Ameaçadas, cujas populações já sofreram fortes reduções devido a perda de habitat e a sobre-exploração cinegética, que podem estar em risco devido ao H5N1.

3.5. Qual a investigação ainda necessária?

Existem muitas lacunas de conhecimento sobre o H5N1 em aves selvagens. É necessária melhor informação sobre como as aves selvagens contraem o vírus, qual a duração do período de incubação, quando e durante quando tempo propagam o vírus (e em que quantidades), quão doentes ficam (e de que forma isto varia entre diferentes animais e afecta a sua capacidade de migração), e que espécies são afectadas.
São também necessários melhores sistemas de monitorização e rastreio para aves migradoras – tanto para fins de conservação, como para contribuir para a previsão e controle da propagação do H5N1, caso venham a ser descobertas aves migradoras portadoras do mesmo no futuro.

3.6. Deverão ser abatidas aves selvagens para evitar a disseminação do vírus?

Isto seria uma medida de controlo totalmente desadequada. A Organização Mundial de Saúde (OMS), a Organização Alimentar e Agrícola (FAO) e a OIE (Organização Mundial para Saúde Animal) concordam que o controle da Gripe das Aves em Aves selvagens por abate indiscriminado não é possível e não deve ser tentado. Juan Lubroth da FAO, Técnico Superior responsável pelas doenças animais infecciosas, comentou que: “… é improvável que (o abate) contribua de forma significativa para a protecção de humanos contra a Gripe das Aves. Existem outras medidas, de muito maior importância, que devem ser consideradas prioritárias.”
Caso sejam encontradas aves selvagens portadoras do H5N1, quaisquer tentativas de abate indiscriminado motivarão uma maior disseminação do vírus, dado que as aves sobreviventes se dispersarão para outros locais, e que aves saudáveis se tornem mais sensíveis a infecções devido ao stress causado.

3.7. Deverão as zonas húmidas ser drenadas para prevenir a presença de aves aquáticas?

Definitivamente não. Para além do seu extremamente alto valor para a conservação, as zonas húmidas são reconhecidas pelo seu papel no ecossistema, tal como controlo de cheias, purificação de água e reciclagem de nutrientes e as vidas de muitas comunidades humanas dependem da sua existência.
A drenagem de zonas húmidas seria não apenas desastroso para o ambiente em termos ambientais, mas também extremamente contraproducente – pelas mesmas razões que o abate indiscriminado seria mais facilmente uma medida que causaria a disseminação do vírus da Gripe das Aves do que o seu controle. As aves procurariam locais alternativos para paragem nas suas rotas de migração, e aves aquáticas forçadas a voar por maiores períodos e a concentrar-se em locais de menor dimensão ficariam mais sensíveis a infecções devido a stress e a condições de exaustão.

4. Se não é devido às aves selvagens, como se espalha o vírus?

Existem pelo menos três vias de transmissão prováveis:

  • Movimentação de aves e produtos de aviário não tratados, e o comércio global de aves de criação;
  • Comércio de Aves Selvagens para gaiol;a
  • A utilização de estrume proveniente de aves como fertilizante na agricultura e aquacultura e como alimento em pisciculturas e suiniculturas.

A maioria dos surtos no Sudeste Asiático, podem ser associados a movimentações de aves ou produtos de criação de aves (ou a material infectado proveniente de aviários, como sejam lama em veículos ou no calçado de pessoas que contactaram com esses locais).
Os mercados de animais vivos no Sudeste Asiático foram um dos principais responsáveis pela propagação do vírus nesta área. Foram identificados como a fonte de infecção por H5N1 em aviários de Hong Kong em 1997, quando foram detectadas cerca de 20% das aves infectadas em mercados de aves vivas.
Existe também um enorme mercado internacional de aves de criação – legal, desregulado ou ilegal. Recentemente foi revelado que carne de aves de aviário era ilegalmente importada da Ásia para os Estados Unidos; em Outubro de 2005, 300 galinhas foram interceptadas pelos serviços alfandegários Italianos, depois de terem sido contrabandeados para o país, vindos da China. Em Novembro de 2005 também as autoridades Britânicas revelaram que elevadas quantidades, possivelmente na ordem das centenas de toneladas, de carne de galinha tinha sido ilegalmente importada da China.
Foi demonstrado que o comércio ilegal de aves de gaiola, prática comum em todo o mundo, foi a causa do transporte de aves infectadas por Gripe através de grandes distâncias. Os serviços alfandegários Tailandeses interceptaram recentemente dois lotes de aves infectadas contrabandeadas do continente Chinês. Um surto de H5N1 numa estação de quarentena para aves no Reino Unido pode também ser atribuída a aves contrabandeadas incluídas de forma ilegal num lote devidamente legalizado e certificado para importação. A fonte de infecção mais provável para aves de cativeiro é mercados de animais vivos, em que animais domésticos e animais capturados na natureza são mantidos em estreita proximidade, causando um elevado risco de contaminação cruzada por Gripe das Aves.
A utilização de estrume não tratado de galinhas, patos e outras aves de aviário como fertilizante ou alimento para suínos, peixes e gado é uma pratica comum na Ásia e Leste Europeu. Aves infectadas com o H5N1 excretam partículas de vírus nas suas fezes: espalhar fezes não tratadas de aves infectadas em pisciculturas ou aquaculturas cria novos focos de infecção. O estrume pode ser transportado através de longas distâncias antes de ser vendido ou utilizado, o que é uma pratica efectivamente perigosa de disseminação do vírus. A FAO (Organização Alimentar e Agrícola das Nações Unidas) recomenda que “a alimentação ou fertilização com estrume de aves deve ser banida em países afectados, ou em risco, pela Gripe das Aves, mesmo que correctamente compostado, armazenado ou seco por tratamento de calor.”

5. Ainda posso ir observar aves? Devo parar de alimentar aves no meu jardim?

As aves selvagens são muito importantes para as vidas de muitas pessoas. Felizmente não existem razões para ter medo delas! Continua a ser seguro observar aves (Birdwatching), embora deva evitar tocar directamente em aves doentes ou mortas, nas suas fezes ou na água nas proximidades das mesmas. É igualmente seguro alimentar aves em jardins. É muito improvável que as aves que visitam estas zonas para se alimentar sejam portadoras do H5N1. Mantenha precauções de higiene normais: lave as mãos depois de tocar em equipamento que esteja em contacto com fezes de aves, limpe e desinfecte poisos e alimentadores com regularidade. Até agora existe apenas um registo, não confirmado (da Turquia) de uma pessoa infectada por uma ave selvagem. Todos os restantes casos resultaram de exposição e contacto directo próximo com aves de aviário.

6. O que pode ser feito para prevenir a propagação da estirpe HPAI H5N1?

A atenção actualmente dedicada à migração de aves selvagens é desadequada e uma potencial dispersão de esforços, energia e recursos. Tentativas de abate indiscriminado de aves são ainda mais inadequadas – o objectivo não é o mais indicado e o método é totalmente ineficaz.
Em vez destas medidas, a prevenção dever concentrar-se sobretudo em melhores medidas de bio-segurança – rastreio e teste de aves de criação, controlo de movimentos e comércio de aves e produtos de aviário e de aves de gaiola, assegurar que estrume de aves utilizado para aquacultura ou fins agrícolas é devidamente tratado antes de aplicado, e aumento de esforços nacionais e internacionais no sentido de controlar o comércio ilegal de aves, sejam de aviário, selvagens ou de produtos derivados.
Alguns países estão a vacinar as suas populações de aves para criação. Investigação demonstrou que a vacinação pode reduzir a infecciosidade de galinhas com Gripe das
Aves e a susceptibilidade de aves saudáveis contraírem o vírus. No entanto, não estão ainda definidas internacionalmente quantidades padrão de antigene para utilizar em vacinas para aves. Aves imunizadas com vacinas de baixa qualidade podem aparentar estar saudáveis, mas espalham o vírus em maiores concentrações nas suas fezes e durante mais tempo. Durante este período o vírus continua a sua replicação, propagação e evolução. Vacinas de má qualidade podem contribuir para que o vírus evolua para novas formas.

 

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